terça-feira, 1 de agosto de 2006

 
Hoje, em conversa com minha mãe, escutei dela uma frase que continha uma palavra que me causou estranheza: "Honestidade não é uma virtude a ser decantada..."
Decantada???? Percebi o que ela queria dizer, mas, do alto da minha soberba onisciência, corrigi-a no ato:

- Alardeada! Decantar é separar um sólido de um líquido através do processo de
D E C A N T A Ç Ã O!
- O quê?

- Você usou a palavra errada. "Decantada" não cabe na frase!

Como filho de peixe, peixinho é, e, filho de Torres, turrão é, fiquei batendo boca com ela sobre o suposto erro por horas. Como nenhum Fonseca é de dar o braço a torcer, ficamos nessa lenga-lenga até que resolvi consultar o gran-conciliador Sr. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira.
Tive que engolir todo minha onisciência e meu orgulho numa engolipada só.

- Mãe, você está certa........

" decantar². [Do lat. decantare]V.t.d. 1. Celebrar ou exaltar em cantos ou em versos.
2. Celebrar, engrandecer, exaltar."

Para minha sorte, nossa discussão não chegou ao costumeiro:
"- Quer apostar?"

Cheguei em casa um pouco depois, abri um cabernet e fui visitar os meus favoritos da blogosfera. Dei de cara com o seguinte artigo do Sérgio Rodrigues, que me lembrou o entrevero anterior.
...........

Por Sérgio Rodrigues (direto do NoMínimo)

Soluto

01.08.2006 O leitor Georgeton Correia conta uma história que diz mais sobre a espessura histórica da língua do que parece à primeira vista. Vamos a ela:

Em visita a uma tia no interior da Bahia, minha mãe ouviu a seguinte descrição de uma antiga fazenda: “Ela já não tem mais a alegria de antes” – afirmou a senhora de 80 anos – “está tudo abandonado, triste, soluto...”

"Soluto!?" – exclamei ao ouvir o relato da minha mãe. Lembro-me das aulas de química no antigo Colegial, e do professor explicando sobre a diferença entre soluto e solvente. Mas confesso que o uso de soluto como sinônimo de triste deixou-me ‘NoMínimo’ (perdoe-me, não consegui evitar o trocadilho) intrigado.

Não é para menos. O “soluto” empregado pela velha senhora do interior da Bahia é um adjetivo em desuso, segundo o Houaiss, com duas acepções: “solto, sem vínculos” e “sem ritmo, rima ou harmonia poética (diz-se de texto)”. No latim solutus, de onde veio a palavra, vamos encontrar um sentido mais coerente com a frase em questão: “dissolvido, decomposto, dissipado”. O mesmo de uma palavra-irmã, esta em pleno uso: “dissoluto”.

Alguém pensou em “decadente”? Isso mesmo. No entanto, se um vestibulando ousasse usar “soluto” com esse significado numa redação, certamente lhe tirariam pontos. Acontece que a língua é muito mais profunda, ainda bem, do que imagina o senso comum com seu apego acrítico à norma culta cristalizada neste momento em gramáticas e dicionários.

Vale lembrar que foi em parte com relíquias como esta, preservadas como por milagre na fala de gente simples, que Guimarães Rosa fez a obra que fez.

Comments:
sabe que fiquei aqui viajando no "decantada" da tua mãe, e pensei aqui como graça...do jeito que a honestidade anda em tempos atuais, muitas ações por aí devem mesmo deixar decantar, chegar ao fundo e só aí talvez ela apareça...no fundo do fundo...ou talvez tua mãe esteja certa não deve ser decantada, por que não tem outro fundo senão lama...
beijos revoltados..ahah
 
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